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8.12.08

Diário de viagem - II

* * * * *
Sexta-feira, 28 de novembro de 2008, 14h30

- Embarque imediato pelo portão 8.

Lá vou eu outra vez. O filme que eu já vi, sendo reprisado na Sessão da Tarde da minha vida. A história se passa diante do portão de embarque do Aeroporto Salgado Filho. Gênero: drama. Participação especial da minha família. Essa doce criatura de pouco mais de um metro de altura, que sempre me abraça primeiro e por último, é a minha sobrinha. Esse bebê lindo que ganha beijos dormindo é o meu sobrinho. A que me abraça muitas vezes é a minha mãe. A que sempre me faz chorar, minha irmã. E não confundam: o que me abraça sério e forte é o meu pai; o que sorri e abraça suave é o meu sogro. Minha sogra é a que fala, sorri, quase chora, abraça suave, forte, tudo ao mesmo tempo.

Lá vou eu outra vez. Sozinha dessa vez. “Dá licença, por favor?”, alguém suplica, pois eu estou atravancando a porta de embarque. Abaixo pra falar com minha sobrinha, lhe dou beijos, conselhos, coma bastante, viu, estude, cuide bem do seu irmão. Ela dá tapinhas nas minhas costas e diz: “Tá bem, Dani. Agora vai, senão tu vai perder o avião.”

Lá vou eu. Outra vez. Para o embarque imediato pelo portão 8. O filme está acabando. A câmera enquadra a protagonista olhando pela janelinha. Uma lágrima escorre devagar. Sobe trilha.

Agora passa a paisagem
Agora não me despedi
Agora compro uma passagem
Agora ainda estou aqui


O avião toma velocidade e eu leio pela última vez PORTO ALEGRE. Fim.


* * * * *


16.9.08

POA, ETC.

Querida amiga blogueira,

Em resposta ao seu ETC.:

Você fala de tudo que volta num golpe assim que o avião aterrissa. Pra mim poucas emoções se comparam a olhar pela janelinha do avião e ver ali escrito "PORTO ALEGRE". Quem nunca foi embora talvez ache que é mero sentimentalismo – mas o coração que viajou 24 horas, subiu em 3 aviões e atravessou o Oceano Atlântico só pra estar de novo em Porto Alegre tem lá suas razões.

E as razões estão lá, no portão de desembarque que você falou. Uma delas tem apenas 5 anos e vem dar os tais abraços históricos antes mesmo que eu possa recolher a bagagem. Às vezes tem até sobrinho novo que eu ainda não conhecia, veja só... Nenhum deles fala em relacionamento nem padece por amor (ainda), mas nascem, crescem, caminham, trocam dentes e chegam às suas próprias conclusões sobre as coisas com uma rapidez difícil de acompanhar. Voltar pra Porto Alegre é tentar acompanhar, nem que seja só um pouquinho...

Voltar pra Porto Alegre em novembro eu ainda não sei como é, mas logo saberei. O que sei é que é primavera, que o sítio do meu pai está cheio de flores, que a minha mãe faz aniversário e que tem Feira do Livro na praça. Eu não vivo nos trópicos como você, eu vivo é em outro hemisfério, lá onde o inverno dura 9 meses e a gente é 4 horas mais velho. Voltar pra Porto em novembro é trégua do frio, da saudade, é rejuvenecer um pouco – e ter que votar pra prefeito!

Com o passar do tempo, voltar pra Porto Alegre é não encontrar mais velhos amigos, porque eles também partiram. Ver que o coração virou tabuleiro do War, com peças espalhadas em diferentes lugares do mapa. Por sorte, alguns amigos fundamentais continuam ali – e esses a gente pode pegar, beijar, abraçar, falar, falar, falar, saber se estão se alimentando direito, se estão felizes ou entediados, se apóiam ou não a Lei Seca, qual a opinião sobre governo da Yeda e o-que-que-aconteceu-aqui-que-só-eu-não-vi.

Voltar pra Porto é abreviar tudo, é ler a Zero, andar de bici, ir no super, tomar um refri. É voltar ao começo, rever lugares da infância, ver que tudo está do mesmo jeito mas um pouquinho diferente (que nem a gente). É comer negrinho, branquinho, bergamota, brincar com os cuscos, não se atucanar e tirar 10 pila no Banco do Brasil pra beber com os amigos na Lima e Silva. É andar no meio do mato, assistir pôr-do-sol em silêncio e lembrar como, mas como família é bom...

É abraçá-los, e abraçá-los de novo, e abraçá-los mais um pouco antes de ir embora. Pois voltar pra Porto Alegre é também ter que se despedir outra vez, mais uma vez, com o mesmo nó na garganta. Você disse chorar um "bocadinho"? Pra mim poucos apertos no peito se comparam a olhar pela janela do avião, antes de decolar, sem data pra voltar, e ver ali escrito PORTO ALEGRE.

27.7.08

Chama o cardio

Nao vê graça na vida?
Anda cabisbaixo?
Sofrendo de retenção de líquido?

Seus problemas acabaram!

5.3.08

Uma questão de bom senso

Pessoas de bom senso não vão morar fora do país.
Em outro continente.
Em outro hemisfério.
Longe da família.
Dos seus livros.
Dos seus móveis.
Das suas fotos.
Do seu carro.
Do seu cachorro.
Do seu salário.
Do seu astrólogo.
Da sua psicóloga.
Da sua lama budista.
Da sua ginecologista.
Do seu gerente do Banco do Brasil.
Do seu diploma da Ulbra.
Do programa de fidelidade da Livraria Cultura.
Do portfólio com peças premiadas no Salão da Propaganda de 1999.
Da avó de 80 anos.
Da sobrinha de 5.
Do sobrinho de meses.
Das amizades de longa data.
Quem tem bom senso assiste GNT e bebe guaraná Antarctica.
Não deixa de falar a própria língua pra falar outra.
Não paga aluguel em euros.
Não mora com estranhos.
Não sobe em aviões.
Nunca viaja.
Quem tem bom senso não põe nem o nariz pra fora de casa.

24.12.07

Devaneios natalinos

No pasa nada é um blog esquizofrênico. Por aqui já se falou de Barcelona, Porto Alegre, amigos estrangeiros, sobrinhos brasileiros, viagens, bobagens. Nem a gente sabe mais sobre o que é esse blog. Esquizofrenia justificável, já que morar em outro lugar não é fácil, a cabeça fica um pouco aqui, um pouco lá. Pior: quando estamos lá, a cabeça está aqui; quando estamos aqui, muitas vezes a cabeça está lá. Mas não importa quanto tempo se more na Europa, a gente nunca deixa de ser tipicamente brasileiro - seja lá o que for que isso signifique.

No momento, ser brasileiro tem sido essa estranheza permanente a tudo ao nosso redor. Tem cabimento fazer frio em dezembro? Fazer 1ºC (ou menos) e não 31ºC (ou mais)? Não participar de nenhum amigo secreto contra a nossa vontade? Não ganhar cheque-presente da Renner nem pular ondinhas no ano novo? Às vésperas do primeiro natal longe dos pampas, absolutamente TUDO dá saudade (quem diria...). Pensamos em tantas coisas que fizemos uma listinha daquelas que, por mais improvável que possa parecer, estão dando saudade.


Especial de natal do Roberto Carlos. Clássico dos clássicos. Ninguém assiste, mas é bom saber que o Rei Roberto está vivo, cantando as músicas de sempre e emocionando as nossas mães.

Retrospectiva do Globo Repórter. As melhores imagens, os fatos inesquecíveis, a cobertura completa do ano, tudo logo após a novela das oito.

Chimarrão a 36ºC. Domingão sem vento, Redenção lotada, e o gaudério feliz e suado tomando chimarrão com a camiseta do Banrisul.

Décimo terceiro. Aquele alento de fim de ano que só serve pra pagar dívidas. Ou dar entrada em outras.

Receber cartão de natal do Luiz Braz. Ou de qualquer outro candidato a vereador que você nunca viu na vida.

Comercial de fim de ano do Zaffari. O filminho ultra-sentimental que faz todo mundo chorar no intervalo da novela.

Engarrafamento no Praia de Belas. Em hipótese alguma haverá vaga no subsolo, então você terá que subir aquela angustiante rampa em caracol lentamente, arrancando o carro várias vezes, apagando algumas, e ao chegar lá em cima constatar que também não há vagas.

Papai Noel de Shopping. Ponto máximo na carreira de todo Papai Noel. O sujeito que já suou na Rua da Praia, fez sucesso no Hipo Fábricas e foi promovido ao Centro Comercial João Pessoa hoje desfruta de seu status trabalhando sentado, no conforto de um ar-condicionado, com crianças de até 40kg no colo, puxando sua barba pra ver se é de verdade. Um verdadeiro herói.

Peru com guaraná quente na ceia de natal. O desafio aqui está em ser rápido pra conseguir uma das coxas e um copo de vidro.

Ganhar cheque-presente da Renner e vale-CD da Banana Records. Dois clássicos dos presentes natalinos sem imaginação. Todo mundo já deu ou recebeu algum.

Destrocar presente dia 26. A maneira mais rápida de se livrar daquela camisa de flanela xadrez estilo lenhador canadense ou daquele CD da Rosa Tattooada.

Contratações da dupla gre-nal para o ano seguinte. Assunto amplamente abordado nas rodas de bar masculinas. A especulação começa com Riquelme e Rivaldo e termina com a contratação do Mossoró e do Ji-Paraná.

Festa de formatura. Sempre tem uma. Cerimônia interminável que derrete chapinhas e maquiagens, leva pais e avós às lágrimas e convidados menos importantes ao desespero quando descobrem que vão ter que pagar o buffet.

Festa de final de ano da firma. Evento ansiosamente esperado por todos para comer e beber de graça, ver a recepcionista de biquíni e o diretor bêbado dançando funk.

Amigo secreto. Poucas coisas podem ser tão esquisitas quanto tirar alguém que você mal conhece, dar um presente que você não escolheu e receber um que você já sabia que ia ganhar.

Ameaças de trabalhar no feriado. Todo ano rola algum tipo de terrorismo. Indiretas por e-mail, reuniões tensas, clientes insatisfeitos, chefes estressados, e tudo mais que possa arruinar o seu feriadão.

Paradinha no Quiosque da Concepa. A gente pára pra tomar uma água e fica observando a fauna: o Magal com o braço pra fora do carro e óculos na cabeça; a família inteira na Marajó verde metálica; as patricinhas de salto alto; o Unesul lotado. O Pedágio de Gravataí é o grande portal, depois dele não tem mais volta, e é quando a gente constata que uma Brasília lotada pode, sim, chegar a Tramandaí.

Litoral gaúcho. A mais improvável das saudades. O Quiosque da Concepa é só uma pequena amostra do que o litoral gaúcho é capaz. E apenas o começo. Há ainda os pardais na Estrada do Mar, o nordestão na beira da praia, a areia na cara (e no milho), os carros com o porta-malas aberto bombando os hits do verão, o engarrafamento na Paraguassú, as pessoas brigando por comida e bebida no Nacional. O horror, o horror.

BR-101. A “briói” é uma espécie de caminho das provações pra quem não desiste de ir pra Santa Catarina. A Brasília com motor superaquecido já chegou a Tramandaí e você ainda nem passou Arroio do Silva.

Pular ondinhas na virada. Uma patetice irresistível. Por algum motivo, pular ondinhas no raso é a grande emoção do réveillon. Católicos, luteranos, budistas e ateus, no ano novo todos são filhos de Iemanjá.

Ressacas sucessivas de fim de ano. A prova de fogo de qualquer fígado.

Férias de fevereiro. Depois dos gastos desmedidos de final de ano, o que era pra ser uma temporada em Búzios vira um fim de semana num camping de Araranguá ou na casa de praia dos sogros em Pinhal. Quem opta por ficar em Porto Alegre, ou é assaltado (pois só ficam os ladrões na cidade), ou morre de tédio. Ou os dois.

Eliminatórias do Garota Verão. O concurso de beleza da RBS, com sua trilha característica, ainda atrai multidões do interior do Estado a Capão da Canoa. Simplesmente hilário ver o vídeo de apresentação das candidatas: "Eu sou a Jéssica e estou representando Bom Princípio, a capital do moranguinho". Hahaha. Que saudade.

31.10.07

A Piqui


Ela é a criança de 4 anos com mais apelidos que eu conheço. Para uns é Níni, para outros, Nina, e também Kika, Rafa, mas pra nós sempre foi Pipi. E porque ela gostou, pegou. Com 1 ano já dizia:

- Meu nome não é Rafaella, é Pipi.

E Pipi teve variações, e virou Piqui-Liqui, e com o tempo, simplesmente, Piqui.

A Piqui é dona de uma das vidas mais divertidas que eu conheço. Tem muitos irmãos - um de sangue e dois “de coração”, como ela mesma diz –, um cachorro chamado Caju, outro chamado Cosquinha, uma “peixa” chamada Luneta, e dois pintinhos, o Pepino e o Biscoito. Nomes escolhidos por ela, porque a Piqui é também a criança mais criativa que eu conheço.

A Piqui adora filmes. Volta e meia ela é algum personagem (“Mãe, eu não sou a Piqui, eu sou a Dorothy”). E quando descobre um filme novo, vê até a gente enjoar – porque ela não enjoa nunca. Ninguém mais suportava ver Noite no Museu, mas ela fazia cenas dantescas na locadora, e lá vinha Noite no Museu de volta para o DVD. Até que convencemos a Piqui a ver Noviça Rebelde. Chegando em casa, descobrimos que não tinha dublagem em português.

- Coloca em espanhol. Quero aprender a falar espanhol.

E assistiu sete vezes em espanhol.

- Amei esse filme.

A Piqui só não pode ver Bambi, porque a mãe dele morre e ela chora o resto do dia sem possibilidade de consolo. A Piqui é a criança mais sensível que eu conheço, e chorou muito quando descobriu que todas as pessoas ficam velhinhas e morrem. Mas quando pisam nos calos dela, a Piqui pode ser muito impiedosa. Como quando foi impedida de ver seu desenho preferido no Discovery Kids (Charlie & Lola) porque o tio colorado queria aproveitar a rápida passagem pelo Brasil para saciar a vontade de ver os gols do seu time no Globo Esporte. Tentamos argumentar que a TV não era só dela (apesar de nós sermos os hóspedes), mas a Piqui se revoltou.

- Essa TV não é de vocês, essa casa não é de vocês, nem aquele quarto é de vocês. Vou colocá-los para dormir aqui na sala, nesse chão bem duro e frio, sem cobertor.

Eu achei graça, mas a mãe dela gritava, horrorizada:

- Pede desculpas! Pede desculpas!

Se tem uma coisa que a Piqui detesta é pedir desculpas. E receber ordens, tomar banho, andar de mãos dadas e ser proibida de fazer algo. Segundo ela, “quando as crianças querem fazer algo, os adultos têm que deixar”. E o que tu vai ser quando crescer, Piqui? “Presidente do Brasil”, ela responde. Pensando bem, é o único cargo no país ao qual ela se adaptaria. A Piqui é a criança mais orgulhosa, voluntariosa e insubmissa que eu conheço. Faz tudo sozinha desde os 2 anos.

- Eu odeio ajuda – ela diz.

Mas a pequena Kate Mahoney também sabe ser fofa, fofa, fofa.

- Dani, sabia que tu é a melhor tia que eu já tive?

Ai, ai. Quem resiste?

A Piqui não sabe guardar segredos. Ela pula e ri nervosamente, até contar pra todo mundo, 15 segundos depois. A Piqui ama cavalos e pediu para o avô plantar girassóis no sítio dele. Eles cresceram, floresceram. E quando morreram ela disse:

- Os girassóis são como as pessoas, vó. Não duram muito.

A Piqui tem uma imaginação incrível, a melhor gargalhada do mundo e silêncios impenetráveis. Pode ficar muito tempo pensativa, sem responder pergunta alguma. E quando a gente menos espera, faz confissões surpreendentes.

- Dani, sabia que eu já chorei porque queria ser muito grande e alta pra alcançar a comida nos armários?

Eu disse pra ela não chorar, pois um dia ela ia ser muito grande e alta, e, enquanto não crescia, era só subir numa cadeira.

- É, mas quando eu faço isso, a minha mãe diz: “pode saindo”.

Árdua tarefa a de ser civilizadora desta criatura indomável. Um dia, a mãe da Piqui fez algo que ela não gostou, e eu, lá do quarto que não é meu, pude ouvir os gritos dela:

- Pede desculpas! Pede desculpas!


Lendo antes de dormir

Um dia ela vai ter um blog

Partimpim no iPod

Ver Charlie & Lola ou ir à locadora?

De bem com o tio colorado

5.10.07

Quando eu estou aqui...

Batizado, casamento, aniversários, churrascos, passeios pelo campo, viagens curtas, reencontros e despedidas. Um post é pouco para tantas emoções. E quando se tem apenas 30 dias, qualquer coisa vira acontecimento - o sorriso do amigo, o olhar do cachorro, a gritaria das crianças, o pai descascando laranja. Captamos centenas de imagens em solo gaúcho e aí vão algumas, só algumas. Parabéns aos envolvidos, nosso muito obrigado e até breve. (Já com saudade, ai ai.)



Ma belle Manu, Muffuleta de sempre

Rosa e Sandro, cariocas porretas

Dê, Edu e mais um fondue daqueles

Amigo Eli, Livraria Cultura

Amores

Los 4 hermanos

Me divirto

Mis compañeros

Mon amie Lu

Ligeiramente maníacos

Deus te abençoe, Eduardo

A maior laranja do mundo


Sultão e Caju

Adoro esse pijama

Casamento na roça

Tudo em família

As Silveiras

Aniversariante lindinha em meio ao caos

Cama elástica

Bebê em meio ao caos


O beijoqueiro ataca

Rosa e Cléo

Querida Mauren

Mile, Gió e Guto

Bad e Ale

Ede, Eli & nós, foto da banda

Sobrinhos maluquinhos




Sobrinhos muy amados

Irmãos de pai

Irmãos de mãe


Mimi e Lelê, Lagoa da Conceição

21.8.07

There's no place like home

Incrível como a vida pode ficar colorida de repente.
Como quando o anjo se apaixona por uma trapezista e vira humano em Asas do Desejo.
Como a Dorothy, somewhere over the rainbow, seguindo as pedras amarelas em Mágico de Oz.
Concordo com ela. Não há lugar como o nosso lar.