Sexta-feira à noite, no BorneEles estavam em frente ao bar. Pareciam dois personagens de cinema mudo, com aqueles chapéus estilo marinheiro. Ela croata, ele italiano. Não falavam espanhol.
- Posso tirar uma foto de vocês?- Claro! (Pose. Click.)
- Vocês são brasileiros?- Sim! - De que parte do Brasil?- Do sul.- Porto Alegre?- Sim! Não me diga que...- Novo Hamburgo? Você conhece Novo Hamburgo?- Sim! Não me diga que... A croata me abraçava, emocionada. Alguém em Barcelona conhecia Novo Hamburgo.
***
Quarta-feira à tarde, na UniversidadePrimeiro dia de aula de Cinema e Pintura. A professora pergunta:
- Alguém aqui tem problema com o idioma? Todo mundo entende o catalão?Um rapaz levanta a mão.
- Mais ou menos, professora. Não entendi nada na aula do Jordi Balló ontem.A professora sorri.
- Ah, mas você... Não quer que eu fale português, não é?Fiquei intrigada. O cara falava espanhol com sotaque francês. O que o português tinha a ver com isso?
-
Você fala português?- Sim, sou brasileiro.- Sério? Eu também!- De onde? Porto Alegre?- Sim! Não me diga que...- Eu também! Eu também!Levantou as mãos pro céu e gritou "Cidade Baixa!". Eu revidei com um "Belém Novo!".
Estávamos um em cada canto da sala, e os catalães nos olhavam. Apavorados.
***
Terça-feira à noite, na Pizza del Born Garçom argentino:
- Você é brasileira, não? Elas também. Apontou para as três meninas loiras sentadas ao meu lado, no balcão do bar.
- E trabalham pra Xuxa. São Paquitas. As meninas riram, faceiras. Uma era baiana, outra paranaense, outra paulista. A baiana, com um ar blasé, deslizou uma moeda de 10 centavos de real até mim e disse:
- Toma. Pra você, quando for ao Brasil. - Ah, obrigada. Mas não vou voltar tão cedo. Devolvi a moeda. Ela insistiu:
- Eu muito menos. Quero essa moeda não. Atrasa a vida. Eu incrédula:
- E você dá pra mim???A moeda ficou lá, nos olhando. A baiana, a contragosto, colocou na carteira de novo.
***
Quinta-feira à tarde, em Santa Coloma- Quer dizer então que vocês são gaúchos?- Sim, você também?- Não, sou de Brasília, mas moro em Porto Alegre desde pequeninha. - Ah, bacana.- Mais ou menos. Sofri muito preconceito lá. Na escola, eu não podia abrir a boca que ficavam tirando sarro do meu sotaque.- Ah, é? Tu vê. Crianças, né? São cruéis.Mudar de assunto. Urgente.
- Mas então você está voltando para Porto Alegre?- Sim. Não gostei de Barcelona, sabe? Não gostei da comida. Não gostei da qualidade de vida. Não gostei dos catalães. São fechados, preconceituosos. E vocês não podem reclamar porque são iguais. - Mas é você que está reclamando!***
Moral da(s) história(s): 1. Todos os designers de sapatos do mundo já foram a Novo Hamburgo.
2. Gaúchos que moram em Paris falam espanhol com sotaque francês, mas português sem sotaque.
3. Se uma baiana loira, de chapinha e lentes de contato lhe oferecer uma moeda de 10 centavos, não aceite. Ela está querendo atrasar a sua vida.
4. Não entendo quem reclama dos gaúchos. Morei 29 anos no Rio Grande do Sul e nunca ninguém tirou sarro do meu sotaque.